sábado, 30 de maio de 2015

FERNANDA RIBEIRO: Nativos e imigrantes digitais

Por Fernanda Ribeiro
Acadêmica do Curso de Ciências da Religião.


Marc Prenski foi quem cunhou o termo “nativos digitais” em 2001 para se referir às pessoas que já nasceram dentro do contexto das tecnologias digitais e, ao mesmo tempo, denominou “imigrantes digitais” aqueles que embora não tenham crescido rodeados pelo mundo digital, agora vivem e trabalham nele, precisando se adaptar (CARVALHO, 2013). Essa é a situação da maioria dos professores, imigrantes que precisam lidar com nativos. A situação se agrava quando pensamos que o papel desempenhado pelos imigrantes aqui é o de transmitir conhecimentos aos nativos. Porém, nessa empreitada, é pouco provável que se repitam os já conhecidos erros do colonialismo que invisibilizou ou tornou submissos os nativos no processo de colonização (AGUIAR, 2014).
Nessa relação de imigrantes X nativos, os nativos é que conhecem mais. E como conhecimento gera poder (AGUIAR, 2014), só nos resta a adaptação. É indiscutível a complexidade do processo de formar seres digitais dentro de uma escola que é, majoritariamente, analógica. E não me refiro aqui apenas aos professores, mas a todo o arcabouço ideológico da escola e seu currículo. É preciso uma visão para além da era industrial que acabou por formatar os modelos educacionais mais largamente utilizados (POZZER & CECCHETTI, 2014). Operadores não são mais necessários, nem mesmo aos interesses capitalistas que delinearam os caminhos do conhecimento (AGUIAR, 2014). Agora são necessários seres inovadores, capazes de trabalhar com uma gama infinita de informações e com habilidades múltiplas. Tudo isso, enquanto está conectado ao mundo através das interfaces digitais. E esse educando não reconhece na escola as interfaces que fazem parte do seu cotidiano.
Quando a cultura escolar está distante da realidade da vida dos educandos, ela não se torna atraente e os saberes que ela deseja suscitar caem em terra infértil, já que o educando dificilmente visualiza a utilidade e a finalidade do conhecimento que lhe é transmitido se não consegue conectá-lo com sua vida. A velocidade das informações e a necessidade da expansão de saberes não combinam mais apenas com giz, quadro negro e enciclopédias impressas anualmente. Destaca-se aqui a expressão “apenas” tanto porque as ferramentas multimídia ainda não estão presentes na maioria das escolas públicas, obrigando a pensar um ensino digital com ferramentas analógicas, quanto porque o risco de formar seres digitalmente superficiais não pode ser ignorado. Não basta ao educador que permita dados retirados da Internet em trabalhos acadêmicos, nem que crie um blog para interagir digitalmente com essa geração que lida tão bem com essas novas ferramentas. É preciso ajudar essa geração a lidar com o bombardeio de informações que recebe. A grande questão da era da informação não se resume a estar informado, mas está relacionada a saber selecionar, argumentar e criticar a massa, muitas vezes bruta, que é recebida. Assimilar tudo o que a Internet (principal representação e ferramenta desse novo modelo) apresenta sem ter desenvolvido a capacidade de criticar o que se recebe pode levar essa geração a “um estado de debilitação e depauperação que dificilmente pode ser distinguido de ignorância bruta” (MUMFORD apud KEEN, 2009). Em outras palavras, transformar a massa de informações digitais recebidas em conhecimento é a necessidade, e nisso o educador deve assumir a responsabilidade que é inerente à sua função.
Afinal, o meio de difusão vem mudando (e seguirá mudando), mas a construção do conhecimento continua a ser uma necessidade humana. Portanto a função mediadora do educador, embora precise ser operacionalmente atualizada, ainda é (e possivelmente continuará a ser) uma das formas de aperfeiçoamento e construção do conhecimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUIAR, G. (2014). Gestão do conhecimento e de pessoas. Maringá: Centro Universitário de Maringá/NEAD.
CARVALHO, J. M. (19 de fev. de 2013). Sobre alunos digitais e professores analógicos. Educação Pública - CECIERJ, p. Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/tecnologia/0051.html>. Acesso em 09 mai. 2015.
KEEN, A. (2009). O culto do amador: como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores. (M. L. Borges, Trad.) Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.
POZZER, A., & CECCHETTI, E. (. (2014). Educação e Diversidade Cultural: tensões, desafios e perspectivas. Blumenau, SC: Edifurb.

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