sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

E serve para quê?

   
     São recorrentes os boatos de encerramento do curso de Ciências da Religião. Tais boatos ganham fortes contornos factuais quando nos deparamos com seguidas atitudes que sugerem, no mínimo, desinteresse da administração pública em mantê-lo. Prova disso é a incoerência de um município que oferta formação acadêmica em Ciências da Religião e não faz esforço algum pela consolidação do dispositivo legal que obriga a oferta do ensino religioso em turno regular nas escolas. Pelo contrário, descumpre a lei. Se o assunto é orçamento e responsabilidade pelos gastos, como poderia ser classificado o investimento em uma graduação que não serve às escolas municipais como deveria? A partir da não “capitalização” desse investimento capaz de enriquecer o currículo e a qualidade da educação no município, pode-se imaginar as razões – que vão muito além da alegada crise – para a dita situação calamitosa do orçamento público.
     Mas falemos a linguagem que lhes interessa tentando responder à pergunta que seguidamente aqueles que labutam nas ciências da religião precisam responder: para que serve o nosso curso? Quem formula essa pergunta dificilmente irá sensibilizar-se com a resposta mais óbvia: tenta entender o mundo que criamos gerando conhecimento e consciência sobre os fenômenos que nos envolvem e os seus impactos sobre a sociedade. Mas isso não vende e é este o grande problema para eles. Embora o exercício me seja doloroso, subsidiada por alguns argumentos do Prof. Frank Uzarski posso me atrever a pensar com a ”lógica do mercado”.
      Vamos lá: turismo vende, comércio internacional gera riqueza, o poder da mídia é inquestionável. O que poderia fazer um cientista da religião por uma secretaria de turismo de uma pequena cidade com potencial turístico religioso ainda não explorado? Que diferença faria para uma grande companhia de qualquer coisa a consultoria de um especialista em religiões e suas imbricações sociais para atingir o seu público alvo? Quanta propagação de discursos intolerantes (que costumam não ser bons para os negócios) seria evitada se cada jornal, revista, televisão ou portal de internet tivesse a consultoria de um especialista nas diversas cosmovisões religiosas? Que diferença faria no comércio internacional com os chineses o entendimento da lógica do Confucionismo que impacta sobremaneira no modo de negociar dessa cultura? Quantas empresas e Estados observam atônitos a ascensão da Índia no mercado sem entender absolutamente nada das crenças que moldam o pensamento indiano? Quanto desentendimento (e mortandade) seria evitado se ficasse claro que o Islamismo não explode prédios? Que diferença faz a opinião de um especialista em religião para a formulação de políticas públicas no enfrentamento da exclusão social? As possibilidades são infinitas, quando nos atrevemos a pensar diferente, a inovar como a universidade nasceu para fazer.
     Sem falar na outra obviedade que é a importância do ensino religioso não confessional nas escolas. Quantos episódios de intolerância seriam evitados? Quem pode negar a importância de uma disciplina que, por essência, é transpassada pelos direitos humanos, dialoga com várias áreas do conhecimento e é capaz de permitir ao educando a compreensão da complexa rede que molda (sendo também moldada) nosso modo de vida?
     Não há desculpas, não há argumentos que justifiquem a espoliação do direito ao conhecimento. Conforme descrito, não é só o mercado – é a visão míope e imediatista do mercado. Retrato deprimente de uma administração despreparada para vislumbrar tendências, para mensurar os retornos da educação para além da simplória superação econômica do valor investido. Para entender que a universidade não é (ou não deveria ser) apenas legitimadora do conhecimento produzido, mas que deve se atrever, ser absurda e rebelde, criar respostas diferentes, formular as perguntas importantes. Uma universidade que se adéqua ao mercado está morta em si mesma, desnutrida do que a faz viver e do que a sociedade espera dela: a abertura de novos caminhos e uma inquietação constante com o que está posto.
Nós seguiremos inquietos.

3 comentários:

Ariel Oliveira disse...

Parabéns Fernanda. Adorei seu artigo. Muito bem contextualizado. Nós seguiremos inquietos, sim!

Fer disse...

Obrigada, Ariel! E principalmente em tempos de posse de nova reitoria... estamos inquietos e atentos.

Unknown disse...

Excelente reflexão, parabéns!

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