domingo, 21 de fevereiro de 2016

Conhecimento precisa tocar o mundo



Não se pode dizer quando começou, mas a educação parece ter se tornado uma grande fábrica. Pode ter sido consequência da Revolução Francesa quando os professores foram alçados ao nível de novos sacerdotes para o Estado que de alguma forma pretendia substituir a religião. Estado e poder econômico viraram amigos para sempre e mesmo agora quando o Estado parece ficar menor diante do mercado, o fato é que a escola em algum ponto se acostumou a atuar como mecanismo de padronização a serviço do poder econômico.
E o ensino superior parece coroar com pompa e circunstância o processo pelo qual o urso selvagem se transforma no urso inteligente que não sabe o que fazer com os seus truques de bola quando é lançado de volta à selva. Rubem Alves é quem conta a história deste urso, lembrando que a especialização em algo pede um nível de concentração que obriga ao esquecimento do resto (ALVES, 1986). E este esquecimento do resto leva a universidade para um caminho sombrio onde ela se apresenta apenas como sistematizadora do pensamento anterior. Seus ritos e métodos a mantém intacta, tão intacta que mesmo fazendo do mundo o seu objeto de estudo, ela não toca o mundo nem parece por ele tocada, tão fechada em si ela parece.
A universidade, essencialmente em tempos de mudanças tão profundas e velozes, precisa ser mais do que o lugar de repouso sereno das teorias concebidas no passado – precisa aceitar o “risco do erro, do ridículo, da loucura, das grandes hipóteses, muitas delas sem qualquer futuro cientifico” (BUARQUE, 1994, p. 65). Isso exige um desprendimento do poder do mercado, exige inclusive a discussão sobre a quem o mercado serve. A universidade deve retomar o seu caminho inovador e crítico e fazer lembrar que a ciência outrora já foi “brinquedo de fundo de quintal, mas virou mágica poderosa que pode fazer coisas de matar e coisas de vender, coisas para dominar e coisas para ficar rico. “ (ALVES, 1986, p. 49). E não é ruim que o homem possa fazer coisas, desde que não se esqueça que o verdadeiro objetivo de todo conhecimento deve ser afinal tornar o mundo um lugar melhor para todos.

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem Azevedo. Conversas com Quem Gosta de Ensinar. 14ª ed. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1986.
BUARQUE, Cristovam. A Aventura da Universidade. 2ª ed. São Paulo/ Rio de Janeiro: Editora da Universidade Estadual Paulista/ Paz e Terra, 1994.




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