sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

É uma brincadeira...

É verdade que a juventude costuma ser espaçosa e ocupa preferencialmente o lugar que vamos entregando à capacidade analítica ao longo dos anos. Eu fui (mais) jovem e vejo em mim um exemplo dessa teoria. Mesmo (mais) jovem, eu nunca consegui ver com olhos amenos o costume medieval do trote universitário.
Eu não gosto da maioria das “brincadeiras” que sobrevivem à sombra desse costume. E vou além: acho que a universidade, ao menos aquela com a qual sonho, também não deveria gostar.  Embora este seja um ritual que simboliza passagem de uma situação a outra da vida – acredito firmemente que podemos criar rituais que simbolizem a mesma coisa com menos humilhações e constrangimentos.
Nem vou me ater aqui à violência física, às mortes, à ingestão forçada de drogas... isso é crime. Quero falar da também violenta coerção disfarçada e sorridente, daquela que diz que você pode ir embora se quiser, mas vai te rotular de antissocial e te excluir do grupo que na época de vestibulando era seu grande objetivo. Nesta relação de poder você pode ir embora se quiser, mas não será parte da turma. Jamais será um deles. Possivelmente passará pela universidade sem nunca sentir-se parte dela. A passagem não existirá para você, que viverá em um estado de não ser nem vestibulando, nem calouro iniciado, nem veterano. Mas afinal, isso é mesmo o pior que poderia acontecer?
Na verdade, muito pior é aceitar o jogo. Muito me preocupam as justificativas para a “brincadeira”: é o costume, é assim que é, todo mundo faz, você vai querer ser o único  a atrapalhar a festa? Se você opta por seguir o costume hoje, e fazer o que todo mundo faz hoje se rendendo àqueles que aparentemente estão em posição superior à sua, o que vai te mover quando tiver que lidar (e vai ter) com outras relações de poder em que você aparentemente  não tem opção a não ser seguir o jogo?
Quando a qualificação do seu projeto para o mestrado depender de favores? Quando a propina parecer ser o único caminho para permanecer no mercado e ganhar a licitação? Quando renegar direitos de trabalhadores parecer a única opção para manter também o seu trabalho? Quando o cargo no serviço público estiver ao alcance de uma amizade estrategicamente criada? E tantas e tantas outras situações que o jovem que ingressa no ensino superior hoje viverá ao longo de sua vida, acadêmica ou não. Exagero? Não é. Porque as pequenas e grandes mazelas nascem da mesma semente.
A mensagem que a “brincadeira” do trote envia é: submeta-se àqueles que parecem ter mais poder que você. A existência e a assimilação dessa mensagem carregam em si consequências nefastas que não deveriam fazer parte de um ambiente de construção do conhecimento. A universidade não deveria ser lugar para nada além da criação e consolidação de conhecimentos que possam ser revertidos na edificação de uma sociedade mais justa e solidária.
Neste sentido o trote solidário é uma alternativa para manter o rito de passagem dando a ele um simbolismo que sirva a interesses mais elevados, ao passo que a mensagem que ele envia é: você tem responsabilidade sobre o seu bem estar e o bem estar da comunidade na qual você está inserido. A mensagem do trote convertido em intervenção positiva na sociedade é: de nada valerá o seu conhecimento se ele não servir para melhorar o mundo, e você acaba de assumir um acréscimo de responsabilidade pelo bem estar de todos.

Mas afinal, isso pode ser só coisa de gente menos jovem, com a mania chata e pouco eficiente de tentar analisar tudo com profundidade.

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